{"id":38,"date":"2011-12-02T03:20:22","date_gmt":"2011-12-02T03:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/?p=38"},"modified":"2024-11-19T08:58:40","modified_gmt":"2024-11-19T11:58:40","slug":"38","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/?p=38","title":{"rendered":"Espanha leva quase dez anos para iniciar adapta\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo de jornalismo ao Plano Bolonha"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Somente em 2007, ap\u00f3s oito anos da Declara\u00e7\u00e3o do Plano europeu que reorganizou todo o ensino superior, as mudan\u00e7as chegaram \u00e0s escolas espanholas de jornalismo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><\/em>Por Alice Agnelli<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p>O curr\u00edculo do curso de jornalismo na Espanha vem passando por diversas mudan\u00e7as nos \u00faltimos anos. A principal causa para isso s\u00e3o as altera\u00e7\u00f5es realizadas pela padroniza\u00e7\u00e3o do ensino superior na Uni\u00e3o Europeia, pelo chamado Plano Bolonha ou Protocolo Bolonha. Antes, as universidades seguiam sistemas nacionais de educa\u00e7\u00e3o e os cursos ficavam isolados em seus respectivos pa\u00edses. Agora, eles come\u00e7am a se articular em bases comuns, que s\u00e3o v\u00e1lidas para toda a UE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio b\u00e1sico de soberania nacional prevaleceu nas institui\u00e7\u00f5es educativas at\u00e9 meados de 1980. Em 1985, iniciativas pol\u00edticas deram in\u00edcio a uma s\u00e9rie de modifica\u00e7\u00f5es que alteraram substancialmente a forma de ensinar. Em 1987, criou-se o programa Erasmus, que facilita a mobilidade estudantil, permitindo o livre tr\u00e2nsito dos alunos nas universidades de todos os pa\u00edses do continente. A partir dele, um estudante da Fran\u00e7a pode completar sua forma\u00e7ao na Espanha, um da It\u00e1lia, na Alemanha, e assim por diante. Por ano, 200 mil estudantes participam do programa, que contabiliza mais de 2,2 milh\u00f5es de interc\u00e2mbios entre alunos desde seu in\u00edcio.<\/p>\n<p>Este foi o primeiro passo para buscar uma educa\u00e7\u00e3o comum aos pa\u00edses. Em 1992, o Tratado de Maastricht \u00a0ampliou e aprofundou a integra\u00e7\u00e3o das universidades europeias. Com a<a href=\"http:\/\/www.eees.es\/pdf\/Sorbona_ES.pdf\"> Declara\u00e7\u00e3o de Sorbonne<\/a>, em 1998, e \u2013 principalmente \u2013 com a<a href=\"http:\/\/www.eees.es\/pdf\/Bolonia_ES.pdf\"> Declara\u00e7\u00e3o de Bolonha<\/a>, em 1999, finalmente se criou o<a href=\"http:\/\/www.eees.es\/\"> Espa\u00e7o Europeu de Educa\u00e7\u00e3o Superior<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p>As mudan\u00e7as curriculares que afetaram os pa\u00edses ap\u00f3s o Plano Bolonha tamb\u00e9m chegaram \u00e0 Espanha. O objetivo principal \u00e9 unificar os diferentes cursos, adaptando-os a uma realidade comum, para melhorar a qualidade de ensino e, consequentemente, a aprendizagem. Assim, os idealizadores do plano esperam que o aproveitamento dos alunos seria mais uniforme, o que facilita o interc\u00e2mbio cultural entre os pa\u00edses membros da UE.<\/p>\n<div id=\"attachment_39\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/materia1-universidade-autonoma-de-barcelona.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-39\" class=\"size-medium wp-image-39\" title=\"materia1-universidade-autonoma-de-barcelona\" src=\"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/materia1-universidade-autonoma-de-barcelona-300x127.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"127\" srcset=\"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/materia1-universidade-autonoma-de-barcelona-300x127.jpg 300w, https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/materia1-universidade-autonoma-de-barcelona.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-39\" class=\"wp-caption-text\">Universidade Aut\u00f4noma de Barcelona<\/p><\/div>\n<p><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Quatro pontos da Declara\u00e7\u00e3o de Bolonha<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Marcial Murciano, diretor do Observatorio Iberoamericano da Comunica\u00e7\u00e3o e professor de comunica\u00e7\u00e3o da Universitat Aut\u00f3noma de Barcelona, explica em seu artigo \u201c<a href=\"http:\/\/www.dialogosfelafacs.net\/79\/pdf\/articulos\/79MurcianoMarcial.pdf\"><em>A transforma\u00e7\u00e3o dos estudos de comunica\u00e7\u00e3o na Espanha<\/em><\/a><em>\u201d<\/em> que o Plano se apoia em quatro pontos principais.<\/p>\n<p>1. Sistema comum de cr\u00e9ditos;<br \/>\n2. Divis\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o em tr\u00eas ciclos comuns a todos os pa\u00edses;<br \/>\n3. Sistema de verifica\u00e7\u00e3o e acredita\u00e7\u00e3o do ensino;<br \/>\n4. Espa\u00e7o europeu de pesquisa.<\/p>\n<p>O primeiro ponto \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um sistema comum de cr\u00e9ditos universit\u00e1rios, o ECTS (European Credit Transfer System). Ele trata da quantidade de horas necess\u00e1rias para determinada disciplina. Cada cr\u00e9dito equivale a at\u00e9 30 horas de trabalho do estudante dentro e fora da universidade.<\/p>\n<p>O segundo ponto, que divide os cursos universit\u00e1rios em tr\u00eas ciclos com estruturas homog\u00eaneas, tem racionalidade mas despertou cr\u00edticas. Comecemos pela racionalidade. Os tr\u00eas ciclos s\u00e3o l\u00f3gicos: o primeiro ciclo \u00e9 de at\u00e9 240 cr\u00e9ditos e garante, ao final, o t\u00edtulo de gradua\u00e7\u00e3o, que credencia o aluno a atuar no mercado profissional. O segundo ciclo \u00e9 de especializa\u00e7\u00e3o e pesquisa, o chamado <em>m\u00e1ster<\/em>. A quantidade de cr\u00e9ditos oscila entre 60 e 120, que correspondem a 1800 horas de aulas ou atividades de pesquisa. Por fim, quando o aluno j\u00e1 tem mais de 300 ECTS, ele est\u00e1 apto a realizar uma pesquisa de doutorado, a ser defendida publicamente.<\/p>\n<p>Para Murciano, o sistema de divis\u00e3o do ensino universit\u00e1rio em ciclos com quantidades de cr\u00e9ditos pr\u00e9-estabelecidos garante que profissionais qualificados possam atuar desde cedo no mercado e permite a flexibilidade da forma\u00e7\u00e3o inicial b\u00e1sica com uma amplia\u00e7\u00e3o dos estudos. Justamente por isso, pela redu\u00e7\u00e3o do tempo de gradua\u00e7\u00e3o, os estudantes espanh\u00f3is se revoltaram. Para muitos deles, o ensino se voltaria exclusivamente ao mercado competitivo, formando jornalistas com pouco conhecimento te\u00f3rico e muito mecanizados.<\/p>\n<p>Outra cr\u00edtica recorrente no curso de jornalismo \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de estudantes em classe e a falta de recursos para manter turmas pequenas. Segundo o Plano Bolonha, n\u00e3o s\u00e3o permitidas salas com centenas de alunos \u2013 o ensino deve ser feito com grupos menores. Nesse aspecto, Mar\u00edria Valer\u00f3n, aluna de jornalismo da Universidad Carlos III de Madrid, que faz interc\u00e2mbio no Brasil, avalia que as universidades s\u00e3o incapazes de ministrar os gastos econ\u00f4micos que passam a existir com a aplica\u00e7\u00e3o do novo curr\u00edculo. \u201cA universidade n\u00e3o tem verba para contratar outros professores\u201d, diz Maria. \u201cO plano de estudos n\u00e3o permite grupos com muitos alunos. O que acontece? H\u00e1 casos em que um mesmo professor tem que dar aulas simult\u00e2neas a turmas diferentes\u201d. Ela conta que turmas que antes eram de dezenas de alunos, agora passam a ser divididas em grupos de 30, com um professor cada. Apesar de ser melhor, \u00e9 mais caro.<\/p>\n<p>Miquel Andreu, jornalista formado pela Universitat Pompeu Fabra, de Barcelona, tem o mesmo julgamento: \u201cS\u00e3o ideias boas, mas se n\u00e3o h\u00e1 recurso, elas se tornam contraprodutivas\u201d.<\/p>\n<p>Aqui chegamos ao terceiro ponto fundamental do Plano Bolonha: a cria\u00e7\u00e3o do sistema de verifica\u00e7\u00e3o e acredita\u00e7\u00e3o do ensino, com o objetivo de facilitar a avalia\u00e7\u00e3o da qualidade dos cursos. Com isso, criam-se perfis profissionais iguais a todo espa\u00e7o europeu de educa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>Por fim, o quarto ponto \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o europeu de pesquisa, o que vai favorecer a troca de conhecimento acad\u00eamico entre alunos e docentes de diversos pa\u00edses, al\u00e9m de um aumento no n\u00famero de pesquisadores \u2013 j\u00e1 que ter apenas o primeiro ciclo n\u00e3o \u00e9 suficiente: os alunos s\u00e3o levados a fazer um <em>m\u00e1ster<\/em>.<\/p>\n<p>Para Andreu, isso representa um problema: \u201cO perigo \u00e9 que a gradua\u00e7\u00e3o seja rebaixada e dilu\u00edda e a parte verdadeiramente importante dos conte\u00fados seja fornecida apenas na p\u00f3s e nos <em>m\u00e1sters<\/em> \u2013 que, por serem mais caros, n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis a todos os alunos.\u201d<\/p>\n<p><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Demora para dar in\u00edcio ao Plano<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Apesar desse novo par\u00e2metro de ensino de gradua\u00e7\u00e3o ter sido estabelecido em 1999, cada pa\u00eds teve seu pr\u00f3prio processo de adapta\u00e7\u00e3o. No caso espanhol, \u00e9 um processo lento, o que \u00e9 bastante explic\u00e1vel. Como o Plano n\u00e3o estabelece a forma de sua aplica\u00e7\u00e3o, o tempo que isso levar\u00e1, nem a maneira de regular e garantir que os objetivos sejam cumpridos, n\u00e3o se tem como fixar prazos r\u00edgidos para a adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso espanhol, apenas em 2007 foi feito o \u201c<a href=\"http:\/\/www.boe.es\/boe\/dias\/2007\/10\/30\/pdfs\/A44037-44048.pdf\">Real Decreto 1893<\/a>\u201d, que estabeleceu os princ\u00edpios para que se cumprisse o Plano. Sobre a gradua\u00e7\u00e3o, a \u00eanfase na forma\u00e7\u00e3o profissional foi expl\u00edcita. No artigo 8, do cap\u00edtulo II, l\u00ea-se que o estudo \u00e9 orientado para a prepara\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio de atividades de car\u00e1ter profissionais.<\/p>\n<p>Na Espanha, as mudan\u00e7as do ensino superior s\u00f3 come\u00e7aram h\u00e1 menos de cinco anos. Miquel Andreu, que se formou h\u00e1 seis anos, n\u00e3o alcan\u00e7ou nenhum dos efeitos da reforma, embora as discuss\u00f5es sobre o Plano j\u00e1 fossem recorrentes em sua \u00e9poca de faculdade. \u201cN\u00e3o percebi as mudan\u00e7as\u201d, ele conta, \u201cporque quando me formei ele ainda n\u00e3o tinha sido aplicado ao meu curso.\u201d<\/p>\n<p>O motivo da demora espanhola, para o professor Murciano \u00e9 simples: \u201cvacila\u00e7\u00f5es ministeriais, mudan\u00e7as de governos (conservadores\/progressistas)\u201d. E acrescenta: \u201ca principal dificuldade \u00e9 que a implanta\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo feita em um contexto dominado pela crise fiscal do estado espanhol, com cortes nas verbas para o ensino superior\u201d.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<br \/>\nMURCIANO, Marcial. LA TRANSFORMACI\u00d3N DE LOS ESTUDIOS DE COMUNICACI\u00d3N EN ESPA\u00d1A. Di\u00e1logos de La Comunicaci\u00f3n, Revista Acad\u00eamica de La Federaci\u00f3n Latinoamericana de Facultades de Comunicaci\u00f3n Social, 2010. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.dialogosfelafacs.net\/79\/pdf\/articulos\/79MurcianoMarcial.pdf\">http:\/\/www.dialogosfelafacs.net\/79\/pdf\/articulos\/79MurcianoMarcial.pdf<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somente em 2007, ap\u00f3s oito anos da Declara\u00e7\u00e3o do Plano europeu que reorganizou todo o ensino superior, as mudan\u00e7as chegaram \u00e0s escolas espanholas de jornalismo<br \/>\nPor Alice Agnelli<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[10,11],"class_list":["post-38","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-al","tag-espanha","tag-graduacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/38","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=38"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/38\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":569,"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/38\/revisions\/569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=38"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=38"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismoemclasse.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=38"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}